
Pôr-do-sol na vista da esplanada Biblioteca Municipal de Câmara de Lobos, 1oOut2009
"Se uma gaivota viesse, trazer-me o céu..."
Segunda-feira, madruga sobre o corpo uma inércia do nada. Abstenção das coisas da vida. A ilha persiste, desiste de si mesma. Ainda resta a paisagem, submersa por um olhar que a contempla.
O livro que anda comigo, tem um mês, O Filho Eterno ( de Cristóvão Tezza, 2007 - Prémios: Portugal Telecom, 2008 e Jabuti, 2008). Prolonga-se a leitura num consumo demorado. Tudo à volta de uma personagem que é escritor. O contraponto entre a não aceitação pública dos seus livros e como pai de uma criança com síndrome de down. DOWN. DOWN. DOWN. UP.
O plano do horizonte, é uma imagem eterna (?). Lugares belos ou menos interessantes, conforme a alma que os capta. Mas os lugares também podem conter alma, e aí, a empatia tem lugar ou não. As almas encontram-se vida fora, ou reencontram-se num plano cósmico.
Ontem, tarde de Domingo, "morrem" os últimos momentos da exposição de Helena Sousa na Galeria dos Prazeres. Lugares incomuns, PAISAGENS INCOMUNS - a Helena S.; os seus trabalhos e a Galeria. Apaixonei-me pela alma de um quadro. Todos eles, eram motivo de paixão. Mas aquele, sei que não me desiludirá, com o passar do tempo (como nos contos de amor). Em vez de céu havia ouro, e a lua vivia amarrada por uma flor borDADA. Uma paisagem perfeita. As "férias" eternas num lugar qualquer, o qual aspiramos um dia vir a tê-lo. Motivo para diálogo, sobre o que as mãos de um artista constrói, e o construído. O peso da fala, sobre o interior do corpo do autor. A H.S. ensaia a vida, este momento particular da vida dela onde recria um parênteses. Colagens e recortes internos, a desmontar a HIPOCRISIA social. Nos animais há mais partilha, mais coração incondicional. Vejo os estendais, que se repetem sobre as colagens, como arremesso poético da paisagem. Um cheiro de roupa a corar; coisas da memória, aglomerações do sentir na VERDADE, nua e crua. Céu azul, vontade de vida lá fora, sob a paisagem verde intenso do Sítio dos Prazeres. Eu regressei ao Funchal, mesmo no bater das 18:00 horas. Dentro da Galeria, pouco tempo depois, sabia que a Helena Sousa despia o vestido de noite e guardo-ou numa caixa com fita de seda. Há pessoas que falam com o olhar, com o corpo, limpas de ruídos impertinentes. Outras, poucas, falam com as mãos a fazer arte.
Continua sendo segunda-feira, a inércia das coisas boas, só agora, toma conta de mim.